Importa o (bom) caminho

A peregrinação a Santiago de Compostela tem afluência o ano inteiro, mas é durante a Primavera e o Verão que mais caminhantes se fazem à estrada. Além do “alimento” para o espírito que o caminho dá, propomos-lhe uma viagem gastronómica e cultural através do caminho português da costa.

No fim do caminho os peregrinos benzem-se, abraçam-se, choram e riem. Despedem-se. Trocam segredos. Lágrimas que engoliram e que correm pela cara abaixo num misto de alegria e melancolia. É o fim do caminho. O que encontraram neste percurso só a eles diz respeito.

Três dias antes começámos o nosso “pequeno” trajeto no bairro de Pescadores, em A Guarda, a comer e a beber de olhos no mar. Por detrás da vidraça do aquário do Trasmallo repousa um par de santolas, enquanto, à mesa, a viagem começa com salpicon de lagostins com tamboril. Desfilam croquetes caseiros e vieiras grelhadas.

Para os mais distraídos: a concha da vieira é o símbolo do caminho de Santiago. Foi usada em tempos para beber água e hoje representa as rotas que vão dar ao túmulo do apóstolo que dá nome à peregrinação.

Mas, voltando à mesa, espera-nos um rodovalho no carvão que se desfaz na boca. Brindamos com alvarinho Condes de Albarei, com notas florais.

Para fazer a digestão visitamos o Monte de Santa Tecla. O lugar insere-se na cultura castreja e é também um dos sítios mais míticos do litoral galego. Paisagens a perder de vista que incluem o rio Minho e a costa de Portugal e Espanha, se não estivessem tapadas pelo nevoeiro. Reencontramos o sol em Baiona, na Virgen de La Roca, antigo lugar de rituais celtas. Entramos dentro da virgem para disfrutar de vistas privilegiadas para a ria de Vigo e telhados de Baiona. Enquanto subimos aos céus há pequenos mosaicos que nos lembram que a virgem roga por nós “agora e na hora da nossa morte”, afinal, se aqui nos encontramos é em peregrinação. Ana Otero, guia local, sublinha que “está na moda fazer o caminho espiritual”.

Repete-se a ideia que “não é o destino que importa, mas sim a caminhada”. Como diz o povo, “o caminho faz-se caminhando”.  Há quem o faça a pé, quem vá de bicicleta ou até se apresente na garupa de uma motorizada. É o caso de um casal de motoqueiros de Paiporta, Valência, que se cruzou connosco no caminho.

Enquanto uns deambulam numa procura pela justa fé, há quem aproveite o calor para banhos de sol ou mergulhos no mar junto ao porto de Baiona. Justo também é o sono do caminheiro e instalamo-nos no charmoso hotel Talasso Atlántico. Brincamos na água, como crianças, até a fome nos chamar para jantar.

Na manhã seguinte madrugamos e fazemos a pé um pequeno troço do caminho. Quatro e meio quilómetros de Baiona até à ponte Ramallosa. Apesar deste apontamento não ser digno de comparação com os verdadeiros caminheiros, dá para perceber que a massificação turística já chegou ao caminho português quando nos deparamos com um “pilgrim go home”, ao lado de um sinal proibido.

Românica, a ponte de Ramallosa, com os seus arcos semicirculares, atravessa o rio Miñor. Em terra de Meigas (bruxas) diz-se que desde tempos idos se acredita que as mulheres com dificuldade em engravidar deviam lavar-se com água do rio à meia-noite.

O dia está ameno e muitos galegos fazem as suas incursões nas solares praias de Vigo. Nós trocamos os banhos de sol por um mergulho no velho bairro marinheiro que deu origem à cidade costeira. Este é a porta principal para a zona antiga da urbe, hoje povoada por hostais, graffitis e bares. A Circular Books destaca-se pelo conceito invulgar. Uma livraria que vende livros usados, mas que também os compra em bom estado para promover a circulação democrática de obras literárias.

Não muito longe dali fica El Olivo, uma das experiências gastronómicas do dia. Diz o El País que se trata de um “acertado projeto de Pepe Solla no centro histórico de Vigo”, e o que encontrámos em nada o desmente. À entrada uma oliveira centenária dá as boas-vindas e entramos num universo onde o clássico e o moderno andam de mãos dadas.

À mesa do palácio desfilam sabores locais com particular ênfase para as iguarias do Atlântico. O desfile, não sendo de alta-costura, é igualmente elegante. Tapenade de azeitona com anchova e azeite, tártaro de bonito com ventresca de atum, vieira de cambados com maçã verde, espargo com gaspacho e gema de ovo deixam pouco espaço para o imperador na brasa. Tudo bem regado com um Chanselus de castas brancas.

A romagem da tarde leva-nos a Pontevedra. Admiramos a Basílica de Santa Maria, que tem umas nuances do estilo manuelino português. À conta desta semelhança tomamos conhecimento que, na Galiza, há quem defenda a teoria de que o ilustre Pedro Madruga adotou a identidade do navegador Cristóvão Colombo.

Mas há outras histórias mais recentes em Pontevedra. Na Plaza da Peregrina mora a estátua de Ravachol. Reza a lenda que Ravachol foi papagaio de um farmacêutico do início do seculo XX, que avisava quando vinha cliente e não deixava ninguém sair sem pagar. O bicho morreu no Carnaval de 1913 e desde então é celebrado em todos os carnavais de Pontevedra. Em ferro, a escultura é de José Luis Penado.

No centro desta cidade universitária há muito comércio, mas a loja Talento Galego suscita especial interesse. Um espaço inteiramente dedicado a artesãos e produtos locais.

A peregrinação prossegue. No Caminho Português não deverá faltar a visita a Santiaguiño do Monte. Um sítio arqueológico da idade do ferro e lugar de culto desde tempo remoto.  Algures por aqui está o leito de pedra onde descansaram as ossadas do apóstolo Santiago. Rodeado de natureza, o lugar convida à contemplação e à oração.

A última paragem acontece em Padrón, a 22 quilómetros da capital. Terra do Nobel da Literatura Camilo José Cela, foi nesta cidade romana que chegaram desde Jerusalém as ossadas do apóstolo. A pedra onde aportou a barcaça é até hoje lugar de romaria.

Foi também em Padrón que nasceu a grande poetisa galega Rosalía de Castro (1837-1885). Conta Ana Otero que “Rosalía nasceu oprimida, filha de uma fidalga e de um padre de Santiago.” Se a sua vida aguça o apetite para que queiramos conhecê-la melhor, a Casa-Museu com o seu nome é o lugar ideal para desvendar a história daquela que é a fundadora da literatura galega moderna.

A mulher galega é, por excelência, a força motriz da região. Quando os homens emigraram para a América, Uruguai, Brasil ou Argentina, foram elas que ficaram a lavrar a terra e a criar os filhos. Chamaram-lhe “viúvas de vivos”, mulheres bravas e lutadoras. Não será acaso que a escultura de homenagem à poetisa galega tem uma dedicatória dos “padroneses do Uruguai”.

Ao fim da manhã alcançamos a praça do Obradoiro. Vão chegando também centenas de peregrinos que percorrem diferentes caminhos para admirar a fachada da catedral mais famosa do mundo.

O culminar do caminho de Santiago é a missa do peregrino, que se celebra no altar-mor da igreja diariamente. Às 19h30 de sextas-feiras e em datas solenes litúrgicas há botafumeiro. Um dos maiores incensários do mundo – tem 53 quilos – é balançado a partir da nave central. O seu aroma traz purificação espiritual.    

Na impossibilidade de subir aos céus, sobem-se 150 degraus e percorremos os telhados da catedral repetindo a tradição de chegar à Cruz dos Farrapos. Em tempos, um dos rituais do peregrino era queimar a roupa que trazia no corpo para evitar a disseminação de doenças. Hoje as vestes já não ardem, mas é possível brincar de equilibrista nos telhados da imponente igreja e admirar a cidade medieval vista de cima.

A sós ou acompanhado, é impossível perdermo-nos neste caminho onde setas e conchas nos guiam e abençoam. De braços abertos à espera de cada peregrino está a cidade de Santiago de Compostela, Património Mundial da Humanidade desde 1985. 


Informações úteis:

Hotel Talasso Atlántico

Ser peregrino no século XXI dá direito a pernoitar num hotel todo virado para os benefícios da água do mar depois de uns valentes quilómetros de caminhada. Com os olhos postos no oceano, agora é tempo de desligar e recarregar as baterias para o dia seguinte. As atividades ajustam-se às necessidades do hóspede.  

Palacio del Carmen Autograph Collection

Se as paredes falassem, este hotel, que foi casa de curtumes no século XVIII e convento no século XIX, teria muito para contar. Ideal para descansar depois da grande caminhada ou ser a porta de entrada para descobrir a capital galega. O pequeno-almoço é muito variado e substancial e parece sugerir que se faça a pé o caminho de regresso a casa.   

Indómito

Martin Vazquez não se deixa domar. Desafia através dos pratos e da postura na sala. Irreverentes, os pratos são confecionados com produtos da estação e ficam bem na boca e em qualquer fotografia. 

Trasmallo

Trasmallo é uma arte de pesca tradicional e também um restaurante onde se serve o mar à mesa. Ideal para interromper o caminho e mimar-se com peixe e mariscos acabados de apanhar.

Horta do Obradoiro

Kike Piñeiro não tem dúvidas que “a melhor inspiração é viajar”. O chef do restaurante Horta do Obradoiro aos 14 anos já cozinhava e aos 20 superou uma doença grave. Kike já fez o caminho desde Sarria até Santiago. E, hoje, o que sai das suas mãos é o resultado de uma soma de vivências. A quatro mãos, com Eloy Cancela, dão aos sabores ancestrais uma roupagem contemporânea num clima de aldeia. À mesa, os produtos chegados do mercado de Abastos vão casando com os legumes da sua horta privada.

Casa Museu Rosalía de Castro

A morada da escritora é um lugar fundamental para conhecer de perto a história desta mulher que mudou o panorama literário da Galiza.

Para lá do caminho.

Se vários caminhos desaguam em Santiago, só para chegar à praça da catedral, a cidade tem mais para ofertar. À volta da imponente igreja, o centro histórico com as suas ruelas ora silenciosas, ora com a musicalidade própria da urbe, têm um sem fim de lojas que vendem artesanato local subordinado à temática da peregrinação, mas também feiras de rua com velharias. Destaque para o azabache (azeviche), afamada por ser “a pedra do peregrino”.

Visitar o mercado de Abastos é uma boa opção. Abertos todos os dias, exceto ao domingo, aqui pode-se petiscar e ver a vida locar a acontecer.    

O lado moderno da cidade mostra-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, cujo terraço exibe uma das melhores vistas do centro histórico. O edifício é da autoria do arquiteto português Álvaro Siza.

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