Palacete Severo, memória habitada

Num Porto onde a hotelaria de luxo continua a ocupar edifícios históricos, o Palacete Severo distingue-se pela forma como trabalha a memória. O património não surge como cenário, mas como parte integrante da experiência.

Durante décadas, passou quase despercebido a quem atravessava a Rua Ricardo Severo, perto da Rotunda da Boavista. Atrás de um muro discreto mantinha-se uma das casas mais singulares da arquitetura portuense do início do século XX. Hoje, após uma intervenção cuidada, reabre como boutique hotel de cinco estrelas, preservando o carácter de residência que esteve na sua origem.

A casa foi projetada por Ricardo Severo no início do século passado. Mais do que arquiteto, foi uma figura transversal à cultura portuguesa, com uma visão clara sobre a relação entre arquitetura e identidade. O palacete que construiu para viver com Francisca Dumont reflete essa visão: uma casa pensada a partir da tradição portuguesa, tanto na linguagem arquitetónica como nos detalhes construtivos.

Cerca de 120 anos depois, o edifício foi recuperado por proprietários franceses que encontraram neste projeto uma forma de cruzar património e hospitalidade contemporânea. O hotel desenvolve-se hoje entre a casa original e um volume mais recente, implantado no jardim, num total de vinte quartos e suites.

A intervenção preserva os elementos essenciais. Vitrais, azulejos, tetos trabalhados e detalhes de serralharia mantêm-se como parte da identidade do espaço. A componente contemporânea, assinada por Paulo Lobo, introduz conforto e funcionalidade com discrição, mantendo a leitura da casa original. O jardim reforça essa continuidade. Árvores antigas, água e silêncio criam um afastamento imediato da cidade, apesar da proximidade ao centro.

A experiência de estadia acompanha essa lógica. O ambiente mantém uma escala doméstica, pouco comum em hotelaria deste segmento. Dormir num dos quartos originais, onde viveram os primeiros proprietários, acrescenta uma dimensão histórica que se sente nos detalhes.

A gastronomia acrescenta outra camada ao projeto. O hotel integra dois espaços distintos, ambos sob a direção do chef Tiago Bonito. No Bistrô Severo, o foco centra-se no produto e na execução. No restaurante Éon, o menu é pensado como um percurso ligado às referências pessoais do chef, com pratos que cruzam diferentes geografias e momentos do seu percurso.

A harmonização, conduzida pelo sommelier Victor Alves, acompanha essa evolução. A apresentação dos pratos e a escolha da loiça revelam um cuidado que acompanha toda a experiência, sem se sobrepor ao essencial.

O bem-estar surge no Spa Severo, instalado num edifício independente no jardim. Banho turco, haloterapia, piscina exterior aquecida e um conjunto de tratamentos orientados para o relaxamento prolongam o ritmo tranquilo do lugar.

A arte ocupa também um lugar relevante. O hotel acolhe exposições da Perspective Galerie, com obras distribuídas pelos diferentes espaços. Essa presença contribui para a identidade do projeto e para a ligação entre os proprietários e o universo cultural de que fazem parte.

O Palacete Severo afirma-se, assim, por uma ideia clara: a de que a hospitalidade pode ser uma forma de preservar e ativar um lugar. Num contexto onde muitos projetos recorrem ao património como argumento, aqui ele é parte ativa da experiência.

Mais do que um hotel, é uma casa que continua a ser habitada. Agora por quem passa.

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