A Viúva Lamego, guardiã da cerâmica portuguesa desde 1849, uniu‑se ao estúdio canadiano Republic of II by IV para criar Colinas e Marola, duas colecções que transformam a tradição em design contemporâneo. Inspiradas por plissados e ondas, as novas séries demonstram que cada azulejo pode contar uma história; e que o futuro passa pelo diálogo entre arte e inovação.
Às vezes é preciso olhar para trás para ousar dar um passo em frente. Na tradição centenária do azulejo português, a Viúva Lamego tem essa capacidade: ser guardiã de um saber-fazer que remonta a 1849 e, ao mesmo tempo, abrir-se ao mundo. Quando o atelier lisboeta (ou deveríamos dizer sintrense?) abriu as portas para apresentar Colinas e Marola, a sensação era a de assistir a um encontro entre o passado e o futuro. Duas colecções nascidas da primeira colaboração da marca com um estúdio internacional de design – a Republic of II by IV, sediada em Toronto – e que mostram como a cerâmica portuguesa pode dialogar com linguagens globais.


Colinas e Marola: duas leituras da paisagem
Porquê “Colinas” e “Marola”? Comecemos pelo topo. Keith Rushbrook, sócio da Republic of II by IV, explicou-nos que as peças de Colinas se inspiram nas dobras dos tecidos plissados e no ritmo das colinas ondulantes. Os azulejos têm estrias verticais e horizontais que criam jogos de luz e sombra, como se cada módulo (10×10cm, 10×20cm ou 20×20cm) fosse uma pequena escultura. O efeito é táctil, quase líquido: a luz escorrega pelas superfícies, criando gradientes suaves e relevos discretos. Rushbrook sublinhou que estas colecções “são tanto sobre a forma e a textura como sobre o legado”.
Já Marola olha para o mar e a areia. O nome – “marola” é a palavra portuguesa para “onda” – evoca as linhas delicadas que a água deixa na areia ao recuar. Cada azulejo tem gravações assimétricas e sulcos preenchidos com esmalte, produzindo um efeito de ondulação que ganha vida em grandes composições. Os formatos (10×10cm e 10×20cm, na versão da Republic of II by IV, ou 10×10cm e 20×5cm, segundo o catálogo da marca) permitem brincar com a escala, criando fachadas serenas ou interiores imersivos que parecem arqueologia marinha. É um convite à contemplação, mas também à experimentação.
Tradição como matéria viva
O CEO da Viúva Lamego, Gonçalo Conceição, não escondia o orgulho: “Estas colecções reflectem a versatilidade do azulejo e a nossa vontade de o projectar para o futuro, sem perder o vínculo à tradição.” As peças são produzidas no atelier histórico com métodos artesanais e porcelana, em cinco cores – branco, verde, azul, ocre e preto. Cada tonalidade remete para a paisagem portuguesa, da espuma das praias ao musgo dos montes. Como lembra o press release da parceria, a Viúva Lamego preserva “o artesanato da azulejaria feita à mão desde 1849”; a Republic of II by IV, por seu lado, é um estúdio internacional conhecido por criar produtos esculturais e emocionais. Juntos, produziram colecções que são ao mesmo tempo contemporâneas e intemporais.
Colinas e Marola são, portanto, mais do que linhas de produto; são formas que contam histórias. Contam-nos que um azulejo pode ser uma peça de design global sem perder a alma portuguesa. Que a herança é uma matéria viva, aberta a interpretações e colaborações. E que, numa época de produção em massa, ainda há lugar para a imperfeição de um gesto manual e para a emoção que ele transmite.











